Só mais um garoto triste

Publicado: 15/06/2011 em Uncategorized

Algumas coisas perseguem a gente por toda a vida.

Não me refiro àquele hábito de fazer determinada coisa, de provar sempre o mesmo sabor, ver o mesmo tipo de filme, caminhar sempre pelo mesmo lado da calçada… É sobre as experiências de vida que falo.

Assim como  a maioria dos brasileiros, não tive qualquer facilidade em minha vida. As dificuldades, porém, fizeram cada minuto da jornada até aqui valer à pena. Mas certas experiências, certos dissabores, certas mágoas marcam nossa história de vida para sempre, tal como naquele provérbio: “as palavras ditas são como pregos fixados numa tábua…. Por mais que você os tire, as marcas produzidas por eles sempre estarão lá.”.

Acredito que o mesmo aconteça com as experiências de vida. Sou o produto delas. Até hoje ainda fico triste pelos mesmos motivos, choro [por que não?] pelos mesmos motivos e do mesmo jeito: me trancando no banheiro para ninguém ver, tal como quando tinha 12 anos.

E o motivo de tudo isso? Pessoas despreparadas para ter uma família, para representar o papel de pai, para educar, amar.

Minha revolta, na verdade, é com a hipocrisia da sociedade… Veja bem, para uma pessoa [mesmo solteira] ser pai/mãe, existem dois procedimentos: adoção ou sexo. Para o sexo, e portanto para ser pai, o único requisito é o tesão. Já para adotar, a lei impõe uma gama de requisitos.

Hoje, olho para trás e não consigo deixar de ver um garoto triste, sentado na calçada na frente de casa, esperando chegar o tempo em que se tornaria um homem, senhor da sua própria vida.

O tempo passou, e embora a alvorada do ano trinta se aproxime, o momento libertador ainda não chegou. São muitas as amarras que me prendem aqui…

Ah! Que saudades do meu cachorro! Durante muito tempo, aquele vira-latas amarelo, com o focinho preto, que corria de um lado para o outro do quintal e mostrava os dentes quando eu pedia para ele sorrir, foi meu grande amigo. Em todos os momentos tristes ele estava lá por mim. Quando eu me sentava na calçada do outro lado da rua, com o coração apertado de tristeza, ele vinha, se sentava do meu lado na calçada e colocava a patinha branca no meu ombro, como quem dizia: “Não fica assim, eu ‘tô aqui com você…”.

Em dias como hoje, dias difíceis principalmente porque terminam assim, com palavras duras ditas por alguém que pelas leis da natureza jamais deveria dirigí-las a você, eu me sinto como se tivesse 12 anos outra vez. A diferença é que meu cachorro não está aqui para me lember o rosto ou me estender a pata…

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