Escuridão interior

Publicado: 14/08/2011 em Uncategorized

Avanço pela noite, sozinho em casa. Eu a mantive na meia escuridão. É assim que tem sido, é assim que deve ser.

Reviso meu passado, procuro dentro de mim uma explicação, mas a resposta que encontro é sempre a mesma: há algo quebrado aqui.

Talvez por isso eu me critico, e me remoldo, me reinvento, e me machuco tanto.

Quem eu realmente sou? Uma crise existencial constante? Uma busca infindável por uma resposta inexistente? Por que só eu vejo, ouço, sinto, percebo coisas que ninguém mais consegue?

Olhos me vigiam o tempo todo, eu sei. Por isso eu visto a máscara e represento o papel. É o que tem me mantido de pé.

Até que eu descubra a verdade [e ela virá à tona], prefiro espreitar na escuridão, realizar todos os movimentos requeridos pelo operador das cordas só para ver o que acontece no final.

Não sei exatamente o que você quer dizer, nem mesmo quando me procura nos sonhos mais profundos, tenebrosos, tétricos. Mas sinto você presente. E quando acordo, por mais que tenha consciência do despertar, a dúvida sempre permanece… Qual das realidades é o sonho?

Ainda posso ouvir o som da tempestade caindo lá fora. Sinto o cheiro das plantas molhadas. Eu estou numa casa fria, sem cor, sem vida, sem iluminação, assistindo um fim de tarde chuvoso, sem luz. O céu, pálido, mal consegue iluminar o dia, que permanece na penumbra, tal como todo o restante do dia foi. Me faço confortável, sentado num sofá improvisado na janela, enquanto assisto a chuva cair e molhar o vidro. Minha respiração é quente naquele universo morto para o calor, onde as plantas se misturam perfeitas num verde escuro harmônico, e onde as sombras são ainda mais negras. A solidão não me preocupa, mais uma vez, estou confortável embora esteja sozinho. Do lado de fora há um quintal grande e com tantas plantas que não posso ver o portão. Eu sei, de uma forma ou de outra, e de uma vez por todas, que ali é meu lugar. Mas o que eu faço aqui então? Por que acordar e estragar tudo? Para que perder aquela sensação de completude, de paz interior? Eu me basto ali. Um dia você, e eu sei que foi você, chegou até mim e disse para eu não me preocupar, porque um dia eu voltaria para aquele lugar, mas para sempre. E você completou: “porque aqui é a realidade, lá é o sonho.”. Eu sempre soube disso, só não compreendia antes.

E enquanto eu não retorno para aquele lugar onde chamo “casa”, tento aprender a fechar os olhos e me imaginar lá, no meu refúgio sagrado, onde ninguém pode me alcançar, onde não sou melhor e nem pior do que ninguém simplesmente porque não preciso ser, onde um momento mágico ficou para sempre imortalizado, suspenso no ar. Feche os olhos, escute o som da chuva caindo lá fora, sinta o cheiro das plantas molhadas, das almofadas sobre os seus pés, sinta a forma como o frio te faz abraçar os joelhos… Essa é a escuridão a que me refiro, é dela que eu preciso… É o que acalma a minha alma.

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