Arquivo de maio, 2016

O ‘Divino’

Publicado: 12/05/2016 em Uncategorized

lighting-4Cada um tem a experiência com o ‘divino’ de uma forma muito particular, mas desde quando comecei a notar isso que você comentou vi que a própria religião estava me afastando dela. Passei 31 anos sendo um cristão fervoroso, orando, ajudando o próximo, tendo compaixão e misericórdia de todos aqueles que eu via estarem em situação de necessidade.

Pedia e aguardava pacientemente deus ouvir e, julgando que eu fosse ‘merecedor’, conceder aquilo que eu pedia. E isso foi assim até o dia que comecei a notar uma diferença muito grande entre o mundo descrito na ‘palavra’ e o mundo real, entre a igreja do ‘dever ser’ e a igreja do ‘ser’, entre o ‘deus de amor’ que eu tanto acreditava e o deus castigador, perseguidor, vingativo e injusto que circulava na boca dos cristãos.

Foi aí que decidi prestar menos atenção no que os outros falavam e procurar deus dentro de mim. Só que o deus dentro de mim não era compatível com o ‘deus da bíblia’, nem como ‘deus da igreja’, nem com o ‘deus dos cristãos’. As coisas não se encaixavam porque não cabia no meu deus qualquer resquício de maldade.

Ainda muito preocupado e tentando entender toda essa situação, recorri à própria bíblia (I João, cap. 4, vers. 1; Salmo 34, vers. 8) e descobri que o caminho seria pedir a ‘deus’ uma prova da sua existência, porque não via sentido no tanto de sofrimento que passei por mais de trinta anos sendo uma pessoa que se esforçava ao máximo para cumprir a palavra.

Eu estou há três anos aguardando uma resposta que ainda não veio, e provavelmente não virá. Não há sentido em crer numa divindade ‘boa’ que permite o sofrimento das pessoas ‘para que elas aprendam’. E não há o menor sentido em acreditar que essa mesma divindade prefira agir por meios tortuosos, silenciosos, não perceptíveis pelos humanos, já que ela ‘pode tudo’. Igualmente não há razão para acreditar que ‘o tempo de deus’ é diferente do ‘tempo dos homens’, porque se ‘deus’ é bom e se pode tudo, deixar de impedir um mal agora para impedi-lo daqui quarenta anos é, em si, uma atitude má do ponto de vista de quem sofre aguardando uma providência.

Em resumo: a lógica me afastou da religião cristã. O ‘deus cristão’ não pode ser bom e poder tudo ao mesmo tempo, porque a única justificativa para prolongar ou perpetuar o sofrimento de uma pessoa é não poder ajudá-la. Se pode ajudá-la e não ajuda, é porque se regozija no sofrimento, o que é uma atitude má.

Por isso, concluí que o ‘divino’ somos nós. Não devemos esperar que os céus se abram e a providência chegue até nós. Se quisermos que algo aconteça, que a realidade mude, devemos arregaçar as mangas e promover a mudança com nossas próprias mãos.

E até que a prova da existência do ‘deus’, do ‘divino’, se apresente da forma que eu pedi três anos atrás, essa crendice, para mim, não passará de uma alegoria inventada por pessoas que se escondiam nas cavernas com medo toda vez que trovejava.

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